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Não há mais força fortes
Restaram-se os cortes

Não há mais chão portão
Não há entrada para a prisão

Não há o que tinha para ser feito
Porque o tempo passou levou

Não há o que me faça sentir
O que me faça falar

Não há ar que faça bater um coração
Esforços em vão

Tudo se foi
Não há nada
Nem um nada

Há um tudo sem estrada
E eu estou na contramão. 


A gente chora porque nasce. Pela vida.
Chora porque cresce.
Sangra. Carne viva.
Chora por medo de morrer, de perder.
E quando tudo acaba, choram por nós.

Entre os espaços não ditos: o que não tem explicação.
Sem os espaços, nada além de versos em vão.

Falamos sem saber, morremos sem dizer. 
O que tem valor é imensurável.

Eu muda. Tu mudas. Nós mundo. Quer uma carona?


            São tantos prédios dentro de um mundo, tantos mundos num mesmo prédio. Das luzes acesas na janela, observo um velho fumando.  O fogo que queima seu cigarro e arde nos pulmões, as cinzas que caem e se espalham em meio ao cinza da poluição. A dona de casa, que corre atrás do filho caçula, a mãe do filho drogado, a mãe do filho sem pai, a mão da mãe erguida aos céus. O jantar dos ricos, na mesa de madeira importada e de talheres de prata. Aquele homem sentado. A dor que ele sente e que o faz parar, enquanto o mundo vive e os carros lá embaixo correm.  Das janelas diferentes mundos, vejo nuances. O tempo corre do lado de fora, e para do lado de dentro. O grito da mãe parece eterno, a conversa chata na mesa do jantar parece eterna, o ardor, parece eterna a dor. 


Desenho do amigo @antsunesu



- Olha! Olha!
- O quê?
- O tempo.
- Cadê?
- Passou.


        A solidão dói diante de sua anti-tese - os outros. Como um sussurro no ouvido, estar entre os outros, sopra o sopro final: s-o-l-i-d-ã-o. Só sabemos da dor de estar só, porque existem os outros. Extermino então, os outros.

Sou agora só. Minto. Não sou mais só, porque não compreendo mais a noção do que são os outros. Sou o que então? Não me reconheço.


O amor da minha vida nunca vai me perceber de primeira. O amor da minha vida só vai se interessar por beijos e bunda, depois que eu abrir a boca pra falar algo e ver que vale a pena. O amor da minha vida vai ser nômade. Vai odiar rotina e vai querer viajar o mundo. Vai questionar tudo como se fosse uma criança pequena. O amor da minha vida não vai crescer nunca. Vai falar sério, sem perder a leveza. Vai me fazer pensar, entender. Vai ser a parte da engrenagem além de mim capaz de fazer o mundo girar. O amor da minha vida vai me deixar livre o suficiente pra eu sentir vontade de estar presa, entrelaçada. O amor da minha vida vai ter ciúmes, pra eu me sentir a mulher mais linda do mundo. Vai ser seguro do que quer, e inseguro também. Pra que eu possa fazer cafuné até a insegurança passar. O amor da minha vida não vai empoeirar. O amor da minha vida vai marcar sua história na minha carne, até sangrar. Vai marcar. O amor da minha vida vai.


    Do canto da sala de aula, hipnótica, ela fitava aquele sorriso. Era o sorriso mais bonito que já tinha visto. Tão mais bonito do que qualquer sorriso de qualquer propaganda de qualquer creme dental. Era ainda mais bonito quando ele sorria para ela. Sem graça, mas querendo continuar a olhar, ela abaixava a cabeça na tentativa de disfarçar a sua compulsão pelo pedaço de céu materializado naquela boca. Ela que já havia sofrido tanto naquela vida, pois, desde cedo virou mãe de sua mãe alcoólatra, e mãe de todos os filhos que sua mãe alcoólatra arranjava pelo caminho: nunca tinha sentido coisa parecida. 
    Certa vez, eles passaram horas conversando. “Olha esses olhos, olha esse sorriso” – pensava ela enquanto ria de suas piadas. As piadas mais engraçadas do mundo eram as dele. O modo como ele sorria era como ela sempre desejou sorrir e nunca conseguiu. Sentia inveja. “Não é inveja não, é amor.” – pensava. Ele falava de coisas que ela sempre quis ouvir, o homem mais sábio que conhecia. Ele era músico. Ela passou a ouvir música depois que o conheceu. Seu perfume era forte, do jeito que ela gostava. Tão forte que a deixava cada vez mais tonta, fora de si. Aquele cheiro aumentava, e a sufocava de uma maneira como se fosse éter. Foi quando percebeu uma fumaça. O feijão estava queimando. E ela tinha apenas cochilado.
     Todos os dias, ela levantava cedo, olhava no espelho e se penteava. Não era bonita, mas queria acreditar que podia ser. Mal sabia ela que, quando passava pelos corredores, todos reparavam naquele ser desengonçado, mal vestido e que assustava. Aliás, ela sabia sim, só não queria acreditar. Era melhor assim.
    Sentava perto do lugar que ele sentava. E todas as vezes que a borracha dele caía, ela corria para pegar. Só para poder entregar de volta a borracha macia, para a mão mais macia que Deus já fez. Ele sorria de volta em forma de agradecimento. Ela ganhava o dia. Não só as melhores piadas vinham dele, mas também, as melhores intervenções durante a aula. Ele era lindo e inteligente. Era tudo o que ela queria ser.
    Era sábado e ele ia se apresentar no bar da cidade. Ela chegou cedo, para conseguir um lugar na primeira fileira. Fez a unha e o cabelo. Estava confiante: naquela noite ela tinha que amá-lo de verdade. Durante o show, todas as músicas que ele cantava pareciam ser para ela. “Ele está cantando pra mim” – tentava se convencer. Ela era a Yoko Ono dos sonhos dele. Ele era o John Lennon que o mundo precisava.
   Ele sorria tanto, e cantava com tanto amor que o coração dela parecia bater no céu da boca. Foi ao som de “I wanna hold your hand” que ele apontou na sua direção. “Eu quero segurar a sua mão, eu quero segurar a sua mão”- ela traduzia,  já com a cabeça baixa por conta de uma vergonha e alegria imensa. Foi quando percebeu que ele apontava para a moça de trás. Ela era a garota dos seus sonhos. Quem se atreve a roubar o tudo que existia dentro dela? Quem insistia em mandar embora tudo que ela tinha? O oxigênio do seu ar, que agora ficava rarefeito.
    O show acabou. Mesmo suado, ela correu para cumprimentá-lo e ofereceu uma água que ela mesma havia preparado. E depois do melhor abraço do mundo, ela saiu correndo. Como se levasse embora com ela tudo o que ela sempre desejou, e que agora ninguém poderia mais roubar. No meio da rua, já a alguns metros dali, ela parou por um instante, olhou pra trás, e leu o pedaço de papel que estava em suas mãos: “Substância incolor, inodora, e fatal”. Era o amor. Ela havia sentido o amor, e agora era para sempre.
     

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