Do canto da sala de aula, hipnótica, ela fitava aquele sorriso. Era o sorriso mais bonito que já tinha visto. Tão mais bonito do que qualquer sorriso de qualquer propaganda de qualquer creme dental. Era ainda mais bonito quando ele sorria para ela. Sem graça, mas querendo continuar a olhar, ela abaixava a cabeça na tentativa de disfarçar a sua compulsão pelo pedaço de céu materializado naquela boca. Ela que já havia sofrido tanto naquela vida, pois, desde cedo virou mãe de sua mãe alcoólatra, e mãe de todos os filhos que sua mãe alcoólatra arranjava pelo caminho: nunca tinha sentido coisa parecida.
Certa vez, eles passaram horas conversando. “Olha esses olhos, olha esse sorriso” – pensava ela enquanto ria de suas piadas. As piadas mais engraçadas do mundo eram as dele. O modo como ele sorria era como ela sempre desejou sorrir e nunca conseguiu. Sentia inveja. “Não é inveja não, é amor.” – pensava. Ele falava de coisas que ela sempre quis ouvir, o homem mais sábio que conhecia. Ele era músico. Ela passou a ouvir música depois que o conheceu. Seu perfume era forte, do jeito que ela gostava. Tão forte que a deixava cada vez mais tonta, fora de si. Aquele cheiro aumentava, e a sufocava de uma maneira como se fosse éter. Foi quando percebeu uma fumaça. O feijão estava queimando. E ela tinha apenas cochilado. Todos os dias, ela levantava cedo, olhava no espelho e se penteava. Não era bonita, mas queria acreditar que podia ser. Mal sabia ela que, quando passava pelos corredores, todos reparavam naquele ser desengonçado, mal vestido e que assustava. Aliás, ela sabia sim, só não queria acreditar. Era melhor assim.
Sentava perto do lugar que ele sentava. E todas as vezes que a borracha dele caía, ela corria para pegar. Só para poder entregar de volta a borracha macia, para a mão mais macia que Deus já fez. Ele sorria de volta em forma de agradecimento. Ela ganhava o dia. Não só as melhores piadas vinham dele, mas também, as melhores intervenções durante a aula. Ele era lindo e inteligente. Era tudo o que ela queria ser.
Era sábado e ele ia se apresentar no bar da cidade. Ela chegou cedo, para conseguir um lugar na primeira fileira. Fez a unha e o cabelo. Estava confiante: naquela noite ela tinha que amá-lo de verdade. Durante o show, todas as músicas que ele cantava pareciam ser para ela. “Ele está cantando pra mim” – tentava se convencer. Ela era a Yoko Ono dos sonhos dele. Ele era o John Lennon que o mundo precisava.
Ele sorria tanto, e cantava com tanto amor que o coração dela parecia bater no céu da boca. Foi ao som de “I wanna hold your hand” que ele apontou na sua direção. “Eu quero segurar a sua mão, eu quero segurar a sua mão”- ela traduzia, já com a cabeça baixa por conta de uma vergonha e alegria imensa. Foi quando percebeu que ele apontava para a moça de trás. Ela era a garota dos seus sonhos. Quem se atreve a roubar o tudo que existia dentro dela? Quem insistia em mandar embora tudo que ela tinha? O oxigênio do seu ar, que agora ficava rarefeito.
O show acabou. Mesmo suado, ela correu para cumprimentá-lo e ofereceu uma água que ela mesma havia preparado. E depois do melhor abraço do mundo, ela saiu correndo. Como se levasse embora com ela tudo o que ela sempre desejou, e que agora ninguém poderia mais roubar. No meio da rua, já a alguns metros dali, ela parou por um instante, olhou pra trás, e leu o pedaço de papel que estava em suas mãos: “Substância incolor, inodora, e fatal”. Era o amor. Ela havia sentido o amor, e agora era para sempre.

