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São tantos prédios dentro de um mundo, tantos mundos num mesmo prédio. Das luzes acesas na janela, observo um velho fumando. O fogo que queima seu cigarro e arde nos pulmões, as cinzas que caem e se espalham em meio ao cinza da poluição. A dona de casa, que corre atrás do filho caçula, a mãe do filho drogado, a mãe do filho sem pai, a mão da mãe erguida aos céus. O jantar dos ricos, na mesa de madeira importada e de talheres de prata. Aquele homem sentado. A dor que ele sente e que o faz parar, enquanto o mundo vive e os carros lá embaixo correm. Das janelas diferentes mundos, vejo nuances. O tempo corre do lado de fora, e para do lado de dentro. O grito da mãe parece eterno, a conversa chata na mesa do jantar parece eterna, o ardor, parece eterna a dor.
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| Desenho do amigo @antsunesu |
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A solidão dói diante de sua anti-tese - os outros. Como um sussurro no ouvido, estar entre os outros, sopra o sopro final: s-o-l-i-d-ã-o. Só sabemos da dor de estar só, porque existem os outros. Extermino então, os outros.
Sou agora só. Minto. Não sou mais só, porque não compreendo mais a noção do que são os outros. Sou o que então? Não me reconheço.
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O amor da minha vida nunca vai me perceber de primeira. O amor da minha vida só vai se interessar por beijos e bunda, depois que eu abrir a boca pra falar algo e ver que vale a pena. O amor da minha vida vai ser nômade. Vai odiar rotina e vai querer viajar o mundo. Vai questionar tudo como se fosse uma criança pequena. O amor da minha vida não vai crescer nunca. Vai falar sério, sem perder a leveza. Vai me fazer pensar, entender. Vai ser a parte da engrenagem além de mim capaz de fazer o mundo girar. O amor da minha vida vai me deixar livre o suficiente pra eu sentir vontade de estar presa, entrelaçada. O amor da minha vida vai ter ciúmes, pra eu me sentir a mulher mais linda do mundo. Vai ser seguro do que quer, e inseguro também. Pra que eu possa fazer cafuné até a insegurança passar. O amor da minha vida não vai empoeirar. O amor da minha vida vai marcar sua história na minha carne, até sangrar. Vai marcar. O amor da minha vida vai.
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_Eu odeio lagartas. - disse a borboleta.
_Mas como?! Você já foi lagarta um dia! - estranhou a cigarra.
_Sim. Mas não sou mais...
_Como consegue negar o seu passado?
_Eu não nego. Ele existe e não dá pra negar...
(Breve Silêncio...)
_Mas por que você odeia as lagartas? Sem elas você não existiria...
_Porque elas querem saber voar, querem ser coloridas. Querem ser como eu.
_E isso não é bom?
_Não. Querendo ser eu, elas esquecem delas. Esquecem que eu sou igual a elas. Me colocam num topo inatingível. Querendo ser eu, elas confirmam para si que não conseguem ser nada melhor. Querendo ser eu, elas me prejudicam.
_E então, você nunca vai deixar de odiá-las?
_Só quando elas deixarem de ser lagartas e virarem borboletas!
_Porque? As borboletas são melhores?
_Não são melhores. Deixarem de ser lagartas é se convencerem de que não merecem viver se arrastando e que merecem voar. Se convencerem de que a borboleta mais incrível se encontra dentro delas, e que o valor que reflete, advém desse encontro. E que a metamorfose depende delas. Lagartas são medíocres.
_Você odeia os seres humanos também?
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Sempre gostei de arte. Na escola, tive aula de música e fiz teatro. Apresentei-me para o mais exigente e fiel público que poderia haver: minha família, a família de meus amigos e os professores. E pra mim era uma puta de uma responsabilidade. Eu era criança, meu mundo era a escola, meus heróis eram eles. Por lá, fiz revoluções, falei do que acreditava...toco de gente e cheia de opinião que era eu, não mudei nem o preço do salgado da cantina.
Eu cresci, e ninguém mais queria fazer teatro e fazer música. As meninas da minha sala passavam batom e começavam a cochichar de meninos, dando risadinhas no final só para chamar a atenção deles. Descobri o que era transar. Menstruei, e dei o meu primeiro beijo na boca. Comecei a achar meus pais um saco, e a pensar em profissão. Profissão de verdade, ser médica como meu pai queria, ser engenheira, ser dentista, ser psicóloga. Nada de arte. Todo mundo da minha idade queria sair, encontrar garotos, beber e conversar. Eu sempre odiei sair de casa, achava os meninos da minha idade uns moleques e sempre fui péssima pra conversar. Mas mesmo assim vivi tudo isso. Não sei porque.
Em algum ponto, (que não identifico bem qual), ser tudo o que era comum na minha idade, e deixar de ser o que eu realmente era, começou a me fazer muito mal. Mas não estou aqui para falar disso, e nem vocês vão ter saco para escutar tudo. O fato é que eu não sou igual a todo mundo da minha idade, ninguém é, mas fingem que são. Eu apenas cansei de fingir, pois viver o que eu não era, dava no mesmo que estar morta.
Hoje eu faço Jornalismo, e entrar na faculdade foi uma das melhores coisas que me aconteceram. A faculdade é a escola dos adultos, e quem sabe alguém possa me levar a sério desta vez. Ainda toco (o suficiente para me fazer bem), não faço teatro mais, e amo ler e escrever. Tenho um twitter, e quem me segue desde o começo pode pensar que ando mudada. Não ando mudada, ando querendo viver. Adoro o twitter mas duas coisas me limitam lá: a primeira é o número de caracteres, e a segunda, é possuir gente que só lê o que eu escrevo porque me conhece, estudou comigo ou me viu na esquina. Esse espaço aqui é meu e de todo mundo que realmente se interessar. Livre como eu gosto de ser. Livre-se como puder.


